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Lata

  No fundo tocando Facção Central: "Desculpa mãe pela dor de me ver fumando pedra, pela Glock na gaveta, pelo gambé pulando a janela", e eu na boca do bar tomando conhaque, bem louco de crack. Era mais um dia normal, provavelmente a sexta ou a sétima vez que eu ia na biqueira naquele dia. Esse é o rolê do cavalo: vai buscar droga na boca pros boy pra ganhar uns tragos ou uma merreca pra fumar mais bagulho no final do dia. Na boca do bar, acelerado e pensando: vou na biqueira pros boy pego dez pila, compro uma pedra de cinco, uma lata de cerveja e uma dose pra diminuir o acelero. Amasso a lateral da lata, tiro o anel da lata e quebro no meio, faço uma espécie de ralo na lateral amassada, pego algumas bitucas do chão, acendo as bitucas, bato as cinzas das bitucas no "ralo" da lata, coloco meu bagulho, me entoco, acendo e fumo. Dois minutos depois eu saio da toca, volto pra boca do bar pra ouvir: "O seu papel deveria ser cuidar de mim, não espancar, torturar, mach...

Amor

  O amor nunca me trouxe porra nenhuma. O "amor" me trouxe o crack, o frio, a fome, o fígado inflamado na rua por causa do alcoolismo. O amor me fez descer a rua Augusta comendo restos de bordas de pizza do chão, todas sujas de cinzas de cigarro. Amor? Amor porra nenhuma! O amor me fez cheirar cola no Vale do Anhangabaú, me fez ter duas overdoses de crack no mesmo dia. O amor me fez ser estuprado pelo meu próprio pai aos 9 anos. O amor fez eu me prostituir por três ou quatro latas de cerveja e um maço de cigarro. O amor me fez levar coturnadas no saco de PM lixo, que bate em pobre na calada da madrugada. O amor era ter 7 anos e ver meu pai dando tapa na cara da minha mãe depois de sete rabos de galo comprados com o dinheiro que ele tinha roubado da própria bolsa dela. O amor era tomar acelerão na biqueira por causa de duas pedras. O amor, o amor e o amor. Nunca teve amor! Dormir na rua e beber "água" do cano estourado na sarjeta nunca foi amor. Eu não sei o que é am...

Sugar Mommy

 2003. Eu tinha 16 anos, estava no primeiro colegial de um colégio público. Já havias repetido a sexta série, em 1999. Depois de um dia comum de aula no colégio novo, um garoto da minha sala chamado Vinicius me chamou de canto e me disse que a tia dele queria falar comigo. Eu mal conhecia o cara, quanto mais saber quem era a porra da tia dele. Ela queria falar comigo na saída, mas eu estava cagando e andando para os dois. No mesmo dia, às 17h30 o telefone toca, eu atendo e é uma mulher que diz se chamar "Cláudia" querendo falar comigo. Ela disse que era do colégio e que o assunto era sério. Pediu para eu encontrar com ela na rua de cima da minha casa. Até onde eu sabia, Cláudia era a diretora do colégio, mas mesmo assim, eu fui. Até pensei em levar uma faca caso fosse falsa a ligação. Chegando na rua, me deparei com a secretária do colégio. Lentamente fui ligando os pontos. Ela obviamente chamou pelo meu nome e eu fui em direção à ela. Ela me cumprimentou com um beijo no rost...

Terça-Feira Comum

Terça-feira, junho de 2019. Eu descia a rua do boteco que eu costumava ficar cuidando de motos na frente para comprar drogas, pra mais um dia saciar meu vício em álcool, porque eu sabia que haveriam outros usuários na porta do bar. Fazia um frio do caralho, e eu encontrei meu amigo Rodrigo com uma garrafa de pinga e outra de conhaque, bem louco falando bosta sozinho pela rua. Ele me viu, e automaticamente saiu do seu estado tempestuado de alcoolismo e gritou pelo meu nome no meio da rua, e eu respondi gritando também, pois estava eufórico para secar aquelas garrafas. Nos abraçamos e eu comecei a beber com ele. Um moleque mais novo também estava lá; Garotinho era o apelido dele. Ele era conhecido por ficar baforando lança perfume e ficar falando sozinho, muito louco de droga na rua. A bebida foi subindo, as coisas foram esquentando. O Garotinho começou a falar pra caralho e encher meu saco. Eu disse que ia pregar ele no soco, e ele me disse que pelo meu tamanho, ele teria que tomar ...

Lágrimas

 Hoje eu quase chorei. Não sei se uma lágrima ou duas conta, mas me ensinaram a não chorar. Me ensinaram a ser "HOMEM", engolir a porra do choro e dos sentimentos esmagadores que já estão me engolindo. Se você chorar, você é mais um "viadinho" que o mundão fodido vai mastigar. Mas é foda não derrubar uma lágrima ou duas olhando para trás, mesmo sabendo que eu tenho que olhar para frente. Eu estava pensando hoje no segundo suicídio que eu presenciei: o primeiro foi um vizinho com esquizofrenia que pulou do vigésimo andar, em 1994. Eu tinha 7 anos na época, e me lembro do giroflex do IML e o corpo abstrato coberto por um lençol na maca. Só que o segundo suicídio foi foda. Saber que por detrás do crisântemo tinha um amigo enforcado no banheiro de casa, e ver ele no caixão com o pescoço todo fodido foi cruel. Mas se eu pensar nisso, eu choro, e eu nunca tive esse espaço. Meu pai me ensinou a dar socos e me masturbar para pornô barato com 8 anos. Ele nunca me deu colo, n...

Linha do Tempo

  1990 , eu tinha 3 anos, meus pais trabalhavam duro e não podiam cuidar do meu irmão e de mim (isso, meu pai ainda era pai). Contrataram uma babá para cuidar de nós dois (meu irmão e eu). Ela era estranha, eu me lembro que ela era uma pessoa de personalidade ruim. Segundo minha mãe, a escola que eu estudava ligou para o trabalho dela questionando ela, meu pai e as múltiplas escoriações que eu tinha pelo corpo. Logo associaram à babá. Eu me lembro de ser espancado e ouvir dela; "se você contar para os teus pais, eu mato teu irmão e você na paulada", e também me lembro de ser obrigado a lavar as fraldas de pano do meu irmão à mão, no tanque, enquanto ele ficava mijado no carrinho de bebê o dia inteiro. Nesse mesmo dia, meu pai chegou mais cedo do trabalho, pegou uma faca, colocou no pescoço da babá e disse que se ela voltasse novamente àquela casa, ela morreria (meu pai sendo pai pela primeira e única vez).   1994 , minha avó por parte de pai morre de complicações no coração,...

Sozinho

Uma imensurável dor cresce no meu peito Grande como o escuro do meu quarto Em que fantasmas me engolem no afago E me destruo sozinho em impagável deleito É com imenso desprazer que vivo na solidão Com uma cova no meu limbo O nada como meu amigo Que em segundos vai do abismo ao chão E também é crescente o vazio ao meu redor E os sinos que longe batem E o medo de que mais se afastem E o vácuo vá se tornando cada vez pior O silêncio toma conta do meu mundo Insano marginal de asas cortadas Que rasteja no chão sobre suas próprias aparas Se afoga na treva e teu sono profundo E tudo é deixado para trás Inclusive a velha paz Que um dia habitou meu mundo