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Showing posts from January, 2020

Dia Ordinário

 Fazia frio, chovia e era madrugada. Eu rastejava pela sarjeta com muita dificuldade, devido aos maus tratos das drogas. De longe, um vulto fantasmagórico. De perto, um ser totalmente desfigurado pelo crack. Ia me aproximando do boteco, que de longe cheirava forte a urina, e os alcoólatras me enxergavam como um monstro (O crack é muito julgado por outros usuários de drogas, mas a devastação das outras drogas são bastante semelhantes). Encharcado na porta daquele boteco, tocava Facção Central: "Desculpa mãe pela dor de me ver fumando pedra, pela Glock na gaveta, pelo gambé pulando a janela". Bem lá no âmago, no íntimo do meu ser, eu chorava forte; forte como a chuva que caía, mas por fora, era duro; duro como pedra, igual às que eu carregava nos bolsos.  Eu olhava para os piores tipo de pessoa, e me sentia um merda perto delas (Também, com tantos anos nas ruas, overdoses, abandono, esquecimento, espancamento e estupro na infância, como é que eu iria me sentir melhor?). Aquele...

Verão

 Rasteiros olhares que vagarosamente varrem paisagens com teus cílios, espelhando o verão com violetas crepúsculos e as paredes amarelo-alaranjadas do solstício austral. E quando noite cai, é soteiro, lúgubre, o estio e o olhar abismal que lágrimas enxurram pela moldura ressecada da janela d`alma, que em cascatas e rios refletem teus pares, e no afoito sopro da espontaneidade, na difluência astral inconsequente, as brisas bonadas desfazem-se em gotejo. Mas frente a mim não sei quem sou. Respiro, balbucio, cólera sucinto, e na mais escura das horas tudo se torna cegueira e gelo. O verão se apaga, as arestas do tempo cortam os dias. Só há penumbra e um vento que sopra com violência para trás tudo o que meu olhar tenta alcançar. Já não existem dálias nem crisântemos. Já não existem beijos nem seio quente, só um desfigurado presente e as migalhas da miséria no eterno outono acinzentado.

Caminho da biqueira

 Com as pernas em carne viva, me arrastava de uma biqueira a outra procurando minha cova. Era um morto vivo. Fazia frio, era madrugada, chovia, e eu estava sozinho. Não havia deus. Nunca houve. Somente raspas de crack no meu cachimbo, e algumas bitucas no meu bolso rasgado. Bêbado, eu rastejava com o tênis furado pela grande São Paulo, em busca de uma fagulha de brisa que a droga pudesse me ascender. Em busca de uma luz; a luz que meu isqueiro fazia enquanto eu dava uma paulada no crack em um beco fedido e escuro. De longe, parecia um vagalume dançando no sombrio, mas de perto, era só mais um nóia marginalizado, tão irreconhecível  quanto um corpo mutilado. As pessoas que se arriscavam ir e vir, me olhavam com desprezo. Me olhavam com uma lâmina nos olhos, me perfurando de nojo. Esse era o maldito caminho da biqueira.  Eu ia comprar minhas drogas com dinheiro roubado, ou vendia algum pertence de casa, e me permitia seer humilhado pelos traficantes por uma pedra de crack,...