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Uso em uso

Naquele entardecer violento, onde o crepúsculo parecia chamas de um céu em guerra, trepidava eu até a biqueira por mais alguns riscos doentios de cocaína. É como se o diabo esfolasse minha cara, e tudo que eu sentira fosse torpor. Parece que é de fora, mas os vermes vem de dentro para extirpar as entranhas. É mais do que um maldito comichão que me coloca à rastejar no asfalto quente da grandiosa metrópole, que engole a si própria, faminta por alienação. Esgueirando dos muros, postes e guias, vou eu, lentamente em direção à minha sina. Olhando de fora, parece bem mais atraente atirar na própria cabeça, ou atar o nó perfeito para enforcar a vida sorrateira que a aleatoriedade do universo me concedeu. Mas pouco a pouco é que eu vou morrendo, mais rápido do que a vida em si poderia dirigir. Meu suicídio é de dose em dose, trago em trago, tiro em tiro, pico em pico, pílul...

Quase...

Eu nasci bem próximo de ser rico. Nasci na favela do Real Parque. Bairro divisa com o Morumbi; um dos bairros mais ricos da América Latina. Toda a minha vida vivi entre bordas, contrastes e divisas. Eu fui sempre um "quase" nos capítulos diários de uma vida condenada ao "por um fio" ; ao incompleto. Antes de tudo, quando se vive em cima do muro sendo um "quase", existe uma regra básica que se aplica até aos mais desprovidos de cônscio, cujo não não tem nenhum resquício de senso crítico: "Enquanto poucos tem bastante, muitos não tem nada". Eu digo que não há necessidade de cônscio, pois quem percebe é quem tem sentidos. A pele que passa o dia lavando vidros no farol, debaixo de 35*C, sente. O nariz que passa o dia sobre o tanque inalando água sanitária, sente. Eu tive senso crítico, tive meus olhos, literalmente e de base analógica desfrutando inocentemente das vulgares imagens dos bastidores da minha vida. Senti nos ouvidos o choro da minha mãe p...

Black Tar Heroin - The Dark End Of The Street (Full Length)

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https://www.youtube.com/watch?v=3RvyDHhGLs0

Epígrafe

EPÍGRAFE Sou bem-nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz. Depois, veio o mau destino E fez de mim o que quis. Veio o mau gênio da vida, Rompeu em meu coração, Levou tudo de vencida, Rugia e como um furacão, Turbou, partiu, abateu, Queimou sem razão nem dó - Ah, que dor! Magoado e só, - Só! - meu coração ardeu: Ardeu em gritos dementes Na sua paixão sombria... E dessas horas ardentes Ficou esta cinza fria. - Esta pouca cinza fria. Manuel Bandeira    -    1917

Carinho

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O quão devastador foi me drogar e assistir quase que em câmera lenta a adicção roubando meus amigos, família e até mesmo, inimigos. Não houveram flertes, namoros, sorrisos, bailes, danças, cartas, abraços ou afeto. Eu vim de um cinza que me tomou no colo assim quando criança. Meu pai bebia demais, agredia demais, estuprava demais e roubava demais para ser pai. Minha mãe, por obrigação, foi e é ausente. Eu tive que ser pai do meu irmão. Coloca-lo para dormir, fazer sua comida, leva-lo para a escola, ensina-lo a fazer seu deveres escolares, ajuda-lo a escovar seus dentes, para quando ele crescesse, sequestrasse um playboy e enfiasse um oitão no rosto de uma grávida chamando-a sem dó e nem remorso de vaca burguesa. Nunca fomos amigos. Ele assaltante, sequestrador e traficante, e eu, nóia. Esquecemos nosso parentesco quando escolhemos ser homenes cada um de sua maneira. Eu não pude ser c...

The right of choose

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Choose enemies Choose dealing drugs Choose beat in your wife's face Choose be kicked in the face by a cop Choose dirty needles Choose teach kids how to smoke crack Choose sell your body for a bag of  cocaine Choose be arrested pregnant Choose buy drugs spun in jail Choose a fucking big pipe full of meth Choose hide guns under your children's bed Choose get drunk and vomit your guts Choose sleep with rats on the streets Choose suck cocks for five bucks Choose try suicide every fucking night Choose heroin overdose Choose be dead still alive Choose choke with your own blood Choose shoot someone in a robbery Choose death

1996

Quando a vida perdeu o colorido da tenra idade e ganhou tons nublados de maldade. As más lembranças pareciam sombras que estavam sempre a me perseguir toda vez que a onerosa claridade dos dias batiam em meus ombros. Eu havia morrido por dentro. Por fora carregava o fardo pesado de não mais desejar viver. No espelho, o espectro de nove anos não enxergava identidade própria, somente de bem distante, alguns próprios traços escorrendo da imagem borrada e disforme de um ser já irreconhecível. Na boca um gosto amargo; terroso, de quem regou os vasos da própria dor, sem enxergar quais eram as flores nos sepulcros dos olhos que se enterravam na vastidão do escuro daquele quarto. Aquele quarto. Esse quarto. O mesmo em que me encontro agora, sentindo o vento gelado da manhã aquerôntica e ouvindo a exata rotação do diâmetro dos pneus trabalhando sobre o asfalto encharcado pela tortuosa e embriagada noite tempestuos...