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Morto

  Um vento hostil que varria da face a vividez soprava naquele beco, frente a via em que eu me rastejava perante a sociedade da qual eu não fazia parte, somente para esmolar um cigarro qualquer que calasse a ânsia que escalava aos prantos dentro de mim. Apenas visto e jamais enxergado, recolhia meu corpo livido da calçada para o brumoso beco novamente. Febril e cego pela fumaça, deixava-me levar pelas verminosas palavras daqueles corpos putrefatos que me rondavam. Com a morte em minhas mãos e bolsos, caminhava cego ao desfiladeiro do inferno para despencar no calor destrutivo da insanidade, mas acabava caindo rapidamente no gelado vácuo da realidade, onde palpável eram os devaneios da minha condição mental. Meu nível etílico estava tão alto quanto o álcool poderia me levar. O crack subia a mente, a cocaína descia a garganta, e eu cada vez mais demente. O sangue coagulado por todo meu nariz, as mãos imundas ...

Uso em uso

Naquele entardecer violento, onde o crepúsculo parecia chamas de um céu em guerra, trepidava eu até a biqueira por mais alguns riscos doentios de cocaína. É como se o diabo esfolasse minha cara, e tudo que eu sentira fosse torpor. Parece que é de fora, mas os vermes vem de dentro para extirpar as entranhas. É mais do que um maldito comichão que me coloca à rastejar no asfalto quente da grandiosa metrópole, que engole a si própria, faminta por alienação. Esgueirando dos muros, postes e guias, vou eu, lentamente em direção à minha sina. Olhando de fora, parece bem mais atraente atirar na própria cabeça, ou atar o nó perfeito para enforcar a vida sorrateira que a aleatoriedade do universo me concedeu. Mas pouco a pouco é que eu vou morrendo, mais rápido do que a vida em si poderia dirigir. Meu suicídio é de dose em dose, trago em trago, tiro em tiro, pico em pico, pílul...

Quase...

Eu nasci bem próximo de ser rico. Nasci na favela do Real Parque. Bairro divisa com o Morumbi; um dos bairros mais ricos da América Latina. Toda a minha vida vivi entre bordas, contrastes e divisas. Eu fui sempre um "quase" nos capítulos diários de uma vida condenada ao "por um fio" ; ao incompleto. Antes de tudo, quando se vive em cima do muro sendo um "quase", existe uma regra básica que se aplica até aos mais desprovidos de cônscio, cujo não não tem nenhum resquício de senso crítico: "Enquanto poucos tem bastante, muitos não tem nada". Eu digo que não há necessidade de cônscio, pois quem percebe é quem tem sentidos. A pele que passa o dia lavando vidros no farol, debaixo de 35*C, sente. O nariz que passa o dia sobre o tanque inalando água sanitária, sente. Eu tive senso crítico, tive meus olhos, literalmente e de base analógica desfrutando inocentemente das vulgares imagens dos bastidores da minha vida. Senti nos ouvidos o choro da minha mãe p...

Black Tar Heroin - The Dark End Of The Street (Full Length)

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https://www.youtube.com/watch?v=3RvyDHhGLs0

Epígrafe

EPÍGRAFE Sou bem-nascido. Menino, Fui, como os demais, feliz. Depois, veio o mau destino E fez de mim o que quis. Veio o mau gênio da vida, Rompeu em meu coração, Levou tudo de vencida, Rugia e como um furacão, Turbou, partiu, abateu, Queimou sem razão nem dó - Ah, que dor! Magoado e só, - Só! - meu coração ardeu: Ardeu em gritos dementes Na sua paixão sombria... E dessas horas ardentes Ficou esta cinza fria. - Esta pouca cinza fria. Manuel Bandeira    -    1917

Carinho

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O quão devastador foi me drogar e assistir quase que em câmera lenta a adicção roubando meus amigos, família e até mesmo, inimigos. Não houveram flertes, namoros, sorrisos, bailes, danças, cartas, abraços ou afeto. Eu vim de um cinza que me tomou no colo assim quando criança. Meu pai bebia demais, agredia demais, estuprava demais e roubava demais para ser pai. Minha mãe, por obrigação, foi e é ausente. Eu tive que ser pai do meu irmão. Coloca-lo para dormir, fazer sua comida, leva-lo para a escola, ensina-lo a fazer seu deveres escolares, ajuda-lo a escovar seus dentes, para quando ele crescesse, sequestrasse um playboy e enfiasse um oitão no rosto de uma grávida chamando-a sem dó e nem remorso de vaca burguesa. Nunca fomos amigos. Ele assaltante, sequestrador e traficante, e eu, nóia. Esquecemos nosso parentesco quando escolhemos ser homenes cada um de sua maneira. Eu não pude ser c...

The right of choose

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Choose enemies Choose dealing drugs Choose beat in your wife's face Choose be kicked in the face by a cop Choose dirty needles Choose teach kids how to smoke crack Choose sell your body for a bag of  cocaine Choose be arrested pregnant Choose buy drugs spun in jail Choose a fucking big pipe full of meth Choose hide guns under your children's bed Choose get drunk and vomit your guts Choose sleep with rats on the streets Choose suck cocks for five bucks Choose try suicide every fucking night Choose heroin overdose Choose be dead still alive Choose choke with your own blood Choose shoot someone in a robbery Choose death