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Domingo

 Domingo. Meados de 2004. Eu havia acabado de receber meu primeiro salário na fábrica em que eu havia acabado de começar a trabalhar. Saquei quase todo o dinheiro no banco e, num misto de ansiedade, desespero e abstinência de cocaína, saí na rua para encontrar alguns outro nóias pra torrar o dinheiro em álcool e drogas. Olhei para a minha esquerda, e lá estavam eles; os outros miseráveis que iriam fazer parte do meu plano diabólico. Dente e Yellow. Esses eram os outros dois nóias que eu (infelizmente) encontrei naquela tarde sepulcral de domingo. Eu cheguei perto dos dois, interrompi o assunto já gritando: "tô bonado, vamos dar uns tiros?". O Dente olhou felizão pra mim e respondeu: "só se for agora!". O Yellow (um ladrão bem mais velho) olhou pra mim e viu sua oportunidadede invocar teus demônios e disse: "vamos dar umas pauladas!". Eu pensei bem e disse que nunca o havia feito, e ele disse pra eu relaxar que estava suave e que era dahora. O Dente olhou c...

Terapia

 Sou um ex dependente químico, um ex alcoólatra em recuperação, tenho Transtorno de Personalidade Borderline e depressão severa. Não tenho amigos. Eles morreram de overdose, suicídio, assassinados e de doenças graves (AIDS, óbvio). Os que sobraram, casaram e não tem mais contato comigo (ainda saem juntos,mas não comigo). Os que eu fiz no hospital psiquiátrico enquanto eu estava internado, também não tem mais contato ou associação comigo. Minha família não fala comigo. Eles não me compreendem. Meu irmão ainda me vê como um nóia, minha cunhada é uma pessoa totalmente desconhecida e alheia à mim, minha mãe acha que depressão é falta do que fazer, e meu pai eu não tenho contato. Meus tios, tias e primos sentem dó de mim. Eu sou sozinho, não tenho namorada, não faço amizades no grupos de apoio. Fiz um perfil em aplicativos de relacionamentos, mas não dou "match" com ninguém. Não sou musculoso, não tenho cabelo liso, não sou loiro, nunca viajei pra outro país, não tenho emprego, nã...

Prevenção de Suicídio/Suicide Prevention

BRASIL Ligue para 188 de qualquer lugar do Brasil e fale com voluntários que atendem 24h por dia. Ou entre no site www.cvv.org.br para mandar um e-mail ou fale no chat: Segunda a quinta-feira das 9h às 1h Sexta feira das 15h às 23h Sábados das 18h às 1h Domingo das 19h às 1h *SERVIÇO TOTALMENTE GRATUITO* _______________________________________ UNITED STATES                                                                                                                               The Lifeline provides 24/7, free and confidential support for people in distress, prevention and crisis resources for you or your loved ones, and best practices for pr...

Dia Ordinário

 Fazia frio, chovia e era madrugada. Eu rastejava pela sarjeta com muita dificuldade, devido aos maus tratos das drogas. De longe, um vulto fantasmagórico. De perto, um ser totalmente desfigurado pelo crack. Ia me aproximando do boteco, que de longe cheirava forte a urina, e os alcoólatras me enxergavam como um monstro (O crack é muito julgado por outros usuários de drogas, mas a devastação das outras drogas são bastante semelhantes). Encharcado na porta daquele boteco, tocava Facção Central: "Desculpa mãe pela dor de me ver fumando pedra, pela Glock na gaveta, pelo gambé pulando a janela". Bem lá no âmago, no íntimo do meu ser, eu chorava forte; forte como a chuva que caía, mas por fora, era duro; duro como pedra, igual às que eu carregava nos bolsos.  Eu olhava para os piores tipo de pessoa, e me sentia um merda perto delas (Também, com tantos anos nas ruas, overdoses, abandono, esquecimento, espancamento e estupro na infância, como é que eu iria me sentir melhor?). Aquele...

Verão

 Rasteiros olhares que vagarosamente varrem paisagens com teus cílios, espelhando o verão com violetas crepúsculos e as paredes amarelo-alaranjadas do solstício austral. E quando noite cai, é soteiro, lúgubre, o estio e o olhar abismal que lágrimas enxurram pela moldura ressecada da janela d`alma, que em cascatas e rios refletem teus pares, e no afoito sopro da espontaneidade, na difluência astral inconsequente, as brisas bonadas desfazem-se em gotejo. Mas frente a mim não sei quem sou. Respiro, balbucio, cólera sucinto, e na mais escura das horas tudo se torna cegueira e gelo. O verão se apaga, as arestas do tempo cortam os dias. Só há penumbra e um vento que sopra com violência para trás tudo o que meu olhar tenta alcançar. Já não existem dálias nem crisântemos. Já não existem beijos nem seio quente, só um desfigurado presente e as migalhas da miséria no eterno outono acinzentado.

Caminho da biqueira

 Com as pernas em carne viva, me arrastava de uma biqueira a outra procurando minha cova. Era um morto vivo. Fazia frio, era madrugada, chovia, e eu estava sozinho. Não havia deus. Nunca houve. Somente raspas de crack no meu cachimbo, e algumas bitucas no meu bolso rasgado. Bêbado, eu rastejava com o tênis furado pela grande São Paulo, em busca de uma fagulha de brisa que a droga pudesse me ascender. Em busca de uma luz; a luz que meu isqueiro fazia enquanto eu dava uma paulada no crack em um beco fedido e escuro. De longe, parecia um vagalume dançando no sombrio, mas de perto, era só mais um nóia marginalizado, tão irreconhecível  quanto um corpo mutilado. As pessoas que se arriscavam ir e vir, me olhavam com desprezo. Me olhavam com uma lâmina nos olhos, me perfurando de nojo. Esse era o maldito caminho da biqueira.  Eu ia comprar minhas drogas com dinheiro roubado, ou vendia algum pertence de casa, e me permitia seer humilhado pelos traficantes por uma pedra de crack,...

Morto

  Um vento hostil que varria da face a vividez soprava naquele beco, frente a via em que eu me rastejava perante a sociedade da qual eu não fazia parte, somente para esmolar um cigarro qualquer que calasse a ânsia que escalava aos prantos dentro de mim. Apenas visto e jamais enxergado, recolhia meu corpo livido da calçada para o brumoso beco novamente. Febril e cego pela fumaça, deixava-me levar pelas verminosas palavras daqueles corpos putrefatos que me rondavam. Com a morte em minhas mãos e bolsos, caminhava cego ao desfiladeiro do inferno para despencar no calor destrutivo da insanidade, mas acabava caindo rapidamente no gelado vácuo da realidade, onde palpável eram os devaneios da minha condição mental. Meu nível etílico estava tão alto quanto o álcool poderia me levar. O crack subia a mente, a cocaína descia a garganta, e eu cada vez mais demente. O sangue coagulado por todo meu nariz, as mãos imundas ...