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Showing posts from 2014

O pouco que me restava

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Diante de mim não havia nada, a não ser o pouco que me restava para nada ser e os segundos desgarrados do meu tempo de viver. Fugiam os grãos das minhas mãos como pássaros que nunca tinham visto o mundo, e por detrás das barras das gaiolas do relógio, se desprendiam de mim para que não se deixassem levar pelos ventos que precediam bem distantes a tempestade que em mim se manifestava. O tempo era pouco, os minutos corriam como cavalos de areia de ampulheta, apressando-se para bem distante, arrastando carruagens velhas de lembranças incompletas e cadáveres de antigas expectativas de um adolescente primitivo, abraçando as gotas da minha chuva, edificando a morte; estreita entre eu e a calçada que me dava colo quando não podia eu ficar de pé para enchergar o horizonte griso e revolto que me assediava. Era um flerte constante entre o vácuo da morte e o infrutífero campo seco dos meus olhos sem reflexo. Estava ela, a morte, intensamente obcecada pela criança suja, rasgada aos trapos da des...

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Chorei Gritei Me magoei Me frustrei Perdi Caí Me apoiei Levantei Caminhei Andei Corri Cheguei Conquistei Aprendi Me fortaleci Venci e fiquei limpo 3 anos. 

Lírios aos rebeldes que falharam

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Sepulcral era o silêncio que dizimava palavras em sua boca, horas depois exumadas em murmúrios desapercebidos que voavam invisivelmente como pó no vento do profundo esquecimento. Sua existência não era desapercebida, porém, também não lembrada. Como uma estátua em decadência à ser tombada pelas drogas; rebeldes dominantes, o laçavam para lançar seus pedaços ao chão, como escravagistas da pobreza natural de cada migalha do seu corpo. Há tempos enxergava ele, em cada placa, em cada letreiro, em cada muro, em cada pixação, em cada poça d'água, em cada nuvem, em cada olhar, em cada movimento, um subliminar umbroso que o guiava ao padecimento sequioso de sua entidade e à penúria do cônscio deslembrado. Sinais os seus, tão evidentes para o mundo quanto era evidente o íntimo dos símbolos à penumbra de sua própria visão. O que nos atava, além do nó de duas marionetes entrelaçadas pelo vício, era o halo do exílio da associação invasiva que a obrigatoriedade das funções sociais exigiam. Ér...

A não existência do ser

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Uma ou duas linhas abaixo das margens da miséria vivia escondido como escombro; um ser despedaçado por detrás das sombras das próprias ruínas. Ríspido com o próprio âmago, afogando as vozes mais baixas que se podia ouvir dentro da cabeça a fundo do abissal silencioso em que seus olhos flutuavam. Boiavam lá também as ruas e outras misérias. Recluso, à si mesmo negava as chaves da liberdade e a luz da janela, que tapava com manto, seja véu ou medo, manto que obstruia até mesmo uma só partícula de luz. Apesar de ter tantos desejos encarcerados, nada lá se podia encontrar. Era o vazio de uma mente cheia de nada e os ecos dos sonhos já mortos em suas minas. Rastejava o ser com um pé na guia e outro na sarjeta, desajeitado mais do que era por natureza, locomovendo seu corpo lívido à lugar nenhum. Era de se ter medo. Como o dono da rua e todos os becos e avenidas, banhava-se na ma...

O pivete cresceu

Para meus irmãos e irmãs que ficaram para trás,caídos nos trilhos,na corrida do trem da vida, deixo minha satisfação e sorrisos por boas lembranças, pois toda vez que chorei por eles, me afoguei em lágrimas, e a sabedoria que cada um deixou transformaram-se em um grande barco a velas , que foi soprado pelos ventos da mudança para um hoje jamais imaginado. A vida é dura, porém não impossível. Olho pra trás e vejo um moleque assustado dentro do mercado, com o bis dentro da manga da blusa doada, pra adoçar o amargo da vida. Lembro do pivete que passou pela violência no lar, pelos abusos sexuais, pela vontade da roupa de marca, pelo ódio ao pai, pela vontade do suicídio. Olho um pouco mais adiante e vejo o jovem frustrado no meio do mato com a lata na mão, dentro do barraco pegando cachimbo debaixo da cama,fumando farelo de crack, vendendo chinelo pra cheirar cocaína. Lembro da fome e ve...

Turn the lights on! (in Portuguese)

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Faça-se a luz!  E num riscar de isqueiro  manifestavam-se  minhas obsessões, flutuantes em um entardecer transcendental, como silhuetas, sozinhas vagueavam para um emaranhado de sombras no abater do dia. Abraçado pelos muros úmidos da cidade acizentada, esvairecia do meu ser a essência que preenchia a lacuna de seus becos improvisados por um amontoado de casas, que em degradee, com tons de melancolia, borravam a rua desde o plúmbeo opaco dos blocos molhados e mal erguidos até a última matiz amadeirada do último barraco, de onde ainda se podia ver o lívido amarelo da luz do último poste luminescente ainda aceso.  Talvez de longe, somente por alguns instantes, eu pudesse tomar uma forma clara novamente, diante daquele fascinante fulgor que dançava para o vento frio, como um vestido alaranjado tremulante, reluzente à noite.  Rapidamente meus desejos derretiam como palavras que estalavam com impera...

Turn the lights on!

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As I ignite the lighter my obsessions manifested, floating in a transcendental eventide, like silhouettes, they wandered alone to a tangle of shadows in the sunrise. Embraced by the humid walls of this grayish city, the essence that filled the gaps of the improvised alleys in a pile of homes was vanished from my body which, with shades of melancholy, blurred the street from the opaque grey of the wet stones until the last wood hue of that last shack, where you still could see the pale yellow of light in the last lighted lamp post. Maybe by far, only for a few moments, I could get myself clear again, under that fascinating brightness that slipped to the cold wind, like a fluttering orange dress, glowing at night. My desires quickly melted as words that broke down in an imperative mood stripping the brightness of my being to the abyssal sight of the dark. The streets were silent just like hostages of the morbid landscape of São Paulo suburbia. It was all so quiet that my footsteps see...

Sussurros passivos

Longínquo, um sussurro deixava à ecoar em meus ouvidos, soluçando, a sentença: "comporte - se como um bom garoto, não fale pela abstinência... eles podem te ouvir" Eu não podia comprometer meus valiosos 5 intensos minutos flutuando nas nuvens da fumaça do crack gritando ou me debatendo. Me abster da presença alheia garantia bons frutos podres em uma vasta colheita naquele campo vazio. Os solos inférteis do meu eu interior cansavam sonhos, que vagarosamente caminhavam sobre o rasteiro lamaçal feito de areia de tempo perdido e prantos. Confrontando minhas máculas no reflexo das poças d'água nos meu olhos, sabia que o silêncio era minha prisão, como a passividade de quem se cala por obrigação ou não, porém, inversamente proporcional ao mais próximo passo do abismo. Quanto menor a euforia, maior a expectativa real de uma queda quase que eterna, se não fosse pela morte/Quanto maio...