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Showing posts from 2020

Sugar Mommy

 2003. Eu tinha 16 anos, estava no primeiro colegial de um colégio público. Já havias repetido a sexta série, em 1999. Depois de um dia comum de aula no colégio novo, um garoto da minha sala chamado Vinicius me chamou de canto e me disse que a tia dele queria falar comigo. Eu mal conhecia o cara, quanto mais saber quem era a porra da tia dele. Ela queria falar comigo na saída, mas eu estava cagando e andando para os dois. No mesmo dia, às 17h30 o telefone toca, eu atendo e é uma mulher que diz se chamar "Cláudia" querendo falar comigo. Ela disse que era do colégio e que o assunto era sério. Pediu para eu encontrar com ela na rua de cima da minha casa. Até onde eu sabia, Cláudia era a diretora do colégio, mas mesmo assim, eu fui. Até pensei em levar uma faca caso fosse falsa a ligação. Chegando na rua, me deparei com a secretária do colégio. Lentamente fui ligando os pontos. Ela obviamente chamou pelo meu nome e eu fui em direção à ela. Ela me cumprimentou com um beijo no rost...

Terça-Feira Comum

Terça-feira, junho de 2019. Eu descia a rua do boteco que eu costumava ficar cuidando de motos na frente para comprar drogas, pra mais um dia saciar meu vício em álcool, porque eu sabia que haveriam outros usuários na porta do bar. Fazia um frio do caralho, e eu encontrei meu amigo Rodrigo com uma garrafa de pinga e outra de conhaque, bem louco falando bosta sozinho pela rua. Ele me viu, e automaticamente saiu do seu estado tempestuado de alcoolismo e gritou pelo meu nome no meio da rua, e eu respondi gritando também, pois estava eufórico para secar aquelas garrafas. Nos abraçamos e eu comecei a beber com ele. Um moleque mais novo também estava lá; Garotinho era o apelido dele. Ele era conhecido por ficar baforando lança perfume e ficar falando sozinho, muito louco de droga na rua. A bebida foi subindo, as coisas foram esquentando. O Garotinho começou a falar pra caralho e encher meu saco. Eu disse que ia pregar ele no soco, e ele me disse que pelo meu tamanho, ele teria que tomar ...

Lágrimas

 Hoje eu quase chorei. Não sei se uma lágrima ou duas conta, mas me ensinaram a não chorar. Me ensinaram a ser "HOMEM", engolir a porra do choro e dos sentimentos esmagadores que já estão me engolindo. Se você chorar, você é mais um "viadinho" que o mundão fodido vai mastigar. Mas é foda não derrubar uma lágrima ou duas olhando para trás, mesmo sabendo que eu tenho que olhar para frente. Eu estava pensando hoje no segundo suicídio que eu presenciei: o primeiro foi um vizinho com esquizofrenia que pulou do vigésimo andar, em 1994. Eu tinha 7 anos na época, e me lembro do giroflex do IML e o corpo abstrato coberto por um lençol na maca. Só que o segundo suicídio foi foda. Saber que por detrás do crisântemo tinha um amigo enforcado no banheiro de casa, e ver ele no caixão com o pescoço todo fodido foi cruel. Mas se eu pensar nisso, eu choro, e eu nunca tive esse espaço. Meu pai me ensinou a dar socos e me masturbar para pornô barato com 8 anos. Ele nunca me deu colo, n...

Linha do Tempo

  1990 , eu tinha 3 anos, meus pais trabalhavam duro e não podiam cuidar do meu irmão e de mim (isso, meu pai ainda era pai). Contrataram uma babá para cuidar de nós dois (meu irmão e eu). Ela era estranha, eu me lembro que ela era uma pessoa de personalidade ruim. Segundo minha mãe, a escola que eu estudava ligou para o trabalho dela questionando ela, meu pai e as múltiplas escoriações que eu tinha pelo corpo. Logo associaram à babá. Eu me lembro de ser espancado e ouvir dela; "se você contar para os teus pais, eu mato teu irmão e você na paulada", e também me lembro de ser obrigado a lavar as fraldas de pano do meu irmão à mão, no tanque, enquanto ele ficava mijado no carrinho de bebê o dia inteiro. Nesse mesmo dia, meu pai chegou mais cedo do trabalho, pegou uma faca, colocou no pescoço da babá e disse que se ela voltasse novamente àquela casa, ela morreria (meu pai sendo pai pela primeira e única vez).   1994 , minha avó por parte de pai morre de complicações no coração,...

Sozinho

Uma imensurável dor cresce no meu peito Grande como o escuro do meu quarto Em que fantasmas me engolem no afago E me destruo sozinho em impagável deleito É com imenso desprazer que vivo na solidão Com uma cova no meu limbo O nada como meu amigo Que em segundos vai do abismo ao chão E também é crescente o vazio ao meu redor E os sinos que longe batem E o medo de que mais se afastem E o vácuo vá se tornando cada vez pior O silêncio toma conta do meu mundo Insano marginal de asas cortadas Que rasteja no chão sobre suas próprias aparas Se afoga na treva e teu sono profundo E tudo é deixado para trás Inclusive a velha paz Que um dia habitou meu mundo

Domingo

 Domingo. Meados de 2004. Eu havia acabado de receber meu primeiro salário na fábrica em que eu havia acabado de começar a trabalhar. Saquei quase todo o dinheiro no banco e, num misto de ansiedade, desespero e abstinência de cocaína, saí na rua para encontrar alguns outro nóias pra torrar o dinheiro em álcool e drogas. Olhei para a minha esquerda, e lá estavam eles; os outros miseráveis que iriam fazer parte do meu plano diabólico. Dente e Yellow. Esses eram os outros dois nóias que eu (infelizmente) encontrei naquela tarde sepulcral de domingo. Eu cheguei perto dos dois, interrompi o assunto já gritando: "tô bonado, vamos dar uns tiros?". O Dente olhou felizão pra mim e respondeu: "só se for agora!". O Yellow (um ladrão bem mais velho) olhou pra mim e viu sua oportunidadede invocar teus demônios e disse: "vamos dar umas pauladas!". Eu pensei bem e disse que nunca o havia feito, e ele disse pra eu relaxar que estava suave e que era dahora. O Dente olhou c...

Terapia

 Sou um ex dependente químico, um ex alcoólatra em recuperação, tenho Transtorno de Personalidade Borderline e depressão severa. Não tenho amigos. Eles morreram de overdose, suicídio, assassinados e de doenças graves (AIDS, óbvio). Os que sobraram, casaram e não tem mais contato comigo (ainda saem juntos,mas não comigo). Os que eu fiz no hospital psiquiátrico enquanto eu estava internado, também não tem mais contato ou associação comigo. Minha família não fala comigo. Eles não me compreendem. Meu irmão ainda me vê como um nóia, minha cunhada é uma pessoa totalmente desconhecida e alheia à mim, minha mãe acha que depressão é falta do que fazer, e meu pai eu não tenho contato. Meus tios, tias e primos sentem dó de mim. Eu sou sozinho, não tenho namorada, não faço amizades no grupos de apoio. Fiz um perfil em aplicativos de relacionamentos, mas não dou "match" com ninguém. Não sou musculoso, não tenho cabelo liso, não sou loiro, nunca viajei pra outro país, não tenho emprego, nã...

Prevenção de Suicídio/Suicide Prevention

BRASIL Ligue para 188 de qualquer lugar do Brasil e fale com voluntários que atendem 24h por dia. Ou entre no site www.cvv.org.br para mandar um e-mail ou fale no chat: Segunda a quinta-feira das 9h às 1h Sexta feira das 15h às 23h Sábados das 18h às 1h Domingo das 19h às 1h *SERVIÇO TOTALMENTE GRATUITO* _______________________________________ UNITED STATES                                                                                                                               The Lifeline provides 24/7, free and confidential support for people in distress, prevention and crisis resources for you or your loved ones, and best practices for pr...

Dia Ordinário

 Fazia frio, chovia e era madrugada. Eu rastejava pela sarjeta com muita dificuldade, devido aos maus tratos das drogas. De longe, um vulto fantasmagórico. De perto, um ser totalmente desfigurado pelo crack. Ia me aproximando do boteco, que de longe cheirava forte a urina, e os alcoólatras me enxergavam como um monstro (O crack é muito julgado por outros usuários de drogas, mas a devastação das outras drogas são bastante semelhantes). Encharcado na porta daquele boteco, tocava Facção Central: "Desculpa mãe pela dor de me ver fumando pedra, pela Glock na gaveta, pelo gambé pulando a janela". Bem lá no âmago, no íntimo do meu ser, eu chorava forte; forte como a chuva que caía, mas por fora, era duro; duro como pedra, igual às que eu carregava nos bolsos.  Eu olhava para os piores tipo de pessoa, e me sentia um merda perto delas (Também, com tantos anos nas ruas, overdoses, abandono, esquecimento, espancamento e estupro na infância, como é que eu iria me sentir melhor?). Aquele...

Verão

 Rasteiros olhares que vagarosamente varrem paisagens com teus cílios, espelhando o verão com violetas crepúsculos e as paredes amarelo-alaranjadas do solstício austral. E quando noite cai, é soteiro, lúgubre, o estio e o olhar abismal que lágrimas enxurram pela moldura ressecada da janela d`alma, que em cascatas e rios refletem teus pares, e no afoito sopro da espontaneidade, na difluência astral inconsequente, as brisas bonadas desfazem-se em gotejo. Mas frente a mim não sei quem sou. Respiro, balbucio, cólera sucinto, e na mais escura das horas tudo se torna cegueira e gelo. O verão se apaga, as arestas do tempo cortam os dias. Só há penumbra e um vento que sopra com violência para trás tudo o que meu olhar tenta alcançar. Já não existem dálias nem crisântemos. Já não existem beijos nem seio quente, só um desfigurado presente e as migalhas da miséria no eterno outono acinzentado.

Caminho da biqueira

 Com as pernas em carne viva, me arrastava de uma biqueira a outra procurando minha cova. Era um morto vivo. Fazia frio, era madrugada, chovia, e eu estava sozinho. Não havia deus. Nunca houve. Somente raspas de crack no meu cachimbo, e algumas bitucas no meu bolso rasgado. Bêbado, eu rastejava com o tênis furado pela grande São Paulo, em busca de uma fagulha de brisa que a droga pudesse me ascender. Em busca de uma luz; a luz que meu isqueiro fazia enquanto eu dava uma paulada no crack em um beco fedido e escuro. De longe, parecia um vagalume dançando no sombrio, mas de perto, era só mais um nóia marginalizado, tão irreconhecível  quanto um corpo mutilado. As pessoas que se arriscavam ir e vir, me olhavam com desprezo. Me olhavam com uma lâmina nos olhos, me perfurando de nojo. Esse era o maldito caminho da biqueira.  Eu ia comprar minhas drogas com dinheiro roubado, ou vendia algum pertence de casa, e me permitia seer humilhado pelos traficantes por uma pedra de crack,...