Friday, July 03, 2015

Black Tar Heroin - The Dark End Of The Street (Full Length)


Epígrafe

EPÍGRAFE

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
- Esta pouca cinza fria.

Manuel Bandeira    -    1917

Saturday, May 09, 2015

Carinho

O quão devastador foi me drogar e assistir quase que em câmera lenta a adicção roubando meus amigos, família e até mesmo, inimigos. Não houveram flertes, namoros, sorrisos, bailes, danças, cartas, abraços ou afeto.
Eu vim de um cinza que me tomou no colo assim quando criança. Meu pai bebia demais, agredia demais, estuprava demais e roubava demais para ser pai. Minha mãe, por obrigação, foi e é ausente.
Eu tive que ser pai do meu irmão. Coloca-lo para dormir, fazer sua comida, leva-lo para a escola, ensina-lo a fazer seu deveres escolares, ajuda-lo a escovar seus dentes, para quando ele crescesse, sequestrasse um playboy e enfiasse um oitão no rosto de uma grávida chamando-a sem dó e nem remorso de vaca burguesa. Nunca fomos amigos. Ele assaltante, sequestrador e traficante, e eu, nóia. Esquecemos nosso parentesco quando escolhemos ser homenes cada um de sua maneira. Eu não pude ser criança. O tempo meu foi abnegado pelas exigências de um adulto ausente.
O que eu realmente quero dizer é que dos carinhos, não os tive. Cresci seco e aprendi da maneira mais difícil. Cresci batendo e apanhando na rua, mas sempre apanhando dentro de casa.
Do homem casado com a minha mãe, nunca carinho. Hoje eu me pergunto, quantos quilates tem um abraço de pai?
Foi tudo combustível que queimou pra eu vagar sozinho e quase que descalço pela cidade floreada de pixos e o adorno que eram as descascas dos prédios velhos da SP que me adotara.
Eu era filho das ruas. Carinhos eu nunca tive.
Amor?
Eram duas moscas acasalando em cima de um cachorro morto na boca do lixo enquanto eu fumava pedra aos 17.

Saturday, January 17, 2015

The right of choose

Choose enemies
Choose dealing drugs
Choose beat in your wife's face
Choose be kicked in the face by a cop
Choose dirty needles
Choose teach kids how to smoke crack
Choose sell your body for a bag of  cocaine
Choose be arrested pregnant
Choose buy drugs spun in jail
Choose a fucking big pipe full of meth
Choose hide guns under your children's bed
Choose get drunk and vomit your guts
Choose sleep with rats on the streets
Choose suck cocks for five bucks
Choose try suicide every fucking night
Choose heroin overdose
Choose be dead still alive
Choose choke with your own blood
Choose shoot someone in a robbery
Choose death

Wednesday, January 14, 2015

1996

Quando a vida perdeu o colorido da tenra idade e ganhou tons nublados de maldade. As más lembranças pareciam sombras que estavam sempre a me perseguir toda vez que a onerosa claridade dos dias batiam em meus ombros.
Eu havia morrido por dentro. Por fora carregava o fardo pesado de não mais desejar viver. No espelho, o espectro de nove anos não enxergava identidade própria, somente de bem distante, alguns próprios traços escorrendo da imagem borrada e disforme de um ser já irreconhecível.
Na boca um gosto amargo; terroso, de quem regou os vasos da própria dor, sem enxergar quais eram as flores nos sepulcros dos olhos que se enterravam na vastidão do escuro daquele quarto.
Aquele quarto. Esse quarto. O mesmo em que me encontro agora, sentindo o vento gelado da manhã aquerôntica e ouvindo a exata rotação do diâmetro dos pneus trabalhando sobre o asfalto encharcado pela tortuosa e embriagada noite tempestuosa passada.
O passado é uma nuvem negra e carregada de tempestades. Dentro do contínuo espaço - tempo, elas parecem tão presentes ou adiantadas quanto um instante dentro de uma gota, prestes a colidir com as outras gotas que colidiram de antemão com o solo.
Perante o histórico de violência que eu tinha antes dos nove, hoje é fácil identificar que as turbulências estavam um passo depois do começo das frustrações de mais um dia invalidado pela minha incapacidade de me associar com o mundo.
A inocência que eu tinha em acreditar que eu poderia encontrar paz em um mundo que não era meu, foi a mesma inocência que me fez acreditar que eu poderia, pelo menos um dia, conhecer a paz dentro do lar, começando pelo meu pai.
Em meus pensamentos nebulosos, aquele dia foi como a teoria do big bang, onde a maldade que era matéria passou a predominar sobre a antimatéria, e o ódio passou a se expandir em escala universal.
Tolo eu em não compreender que estava prestes a vaguear pelos mesmos vastos campos dos olhos úmidos e sem direção que minha mãe traçou sinuosamente no vácuo da própria vida.
Entorpecido pelo sentimento pequeno de fé, acreditava eu poder movimentar todas as estruturas tortas dos alicerces da minha família. Acreditava que poderia moldar novamente as rachaduras do mais trincado pilar que nada assentava.
Meu pai.
Tudo que eu sei sobre ele é que ele era um alcoolatra covarde e violento, cuja mão de polidor de peças era tão pesada quanto a mão do destino que escreveu minha história. Não que eu acredite em destino, mas era com esse mesmo inconsciente que eu carregava fé, também na infância.
Todas as madrugadas, as maciças paredes concretas entre o quarto da minha mãe e o meu pareciam se tornar paredes de papel, transparentes para os ouvidos. Todas as madrugas eu me encolhia debaixo do cobertor quando chegava ele; bêbado, fedendo, violento e cheio de ódio.
Eu me sentia um covarde por não ser forte o suficiente para tentar impedir ele de bater na minha mãe. Todas as madrugadas eu escutava o murmúrio de piedade da minha mãe, após horas de abuso. Eu realmente acreditava que a fé poderia mudar um homem de 40 anos de remorso. Mudar toda a arquitetura dos seus pensamentos frios e obstinados de violência covarde contra duas crianças com menos de dez anos e uma esposa que o sustentava como dever, enquanto eu o assistia roubando a bolsa dela.
Eu abracei a rasteira fábula que  esguiava minhas crenças infantis, fazendo meus sonhos de ter um pai herói se debaterem no chão como uma ave decapitada. E dos portões daquele sorriso maligno aberto, vinham como cães raivosos as palavras delicadas "vem deitar com o papai hoje".
A madrugada, tão escura quanto a mente dele, arrebatou impetuosamente nove anos de ingenuidade.
Esse foi o dia em que o vilão venceu e eu enterrei minha infância.

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