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Showing posts with the label Addiction; adicção ; drogas ; violence ; violencia ; sexual harassment ; sadness ; depression ; depressão ; febem ; subx ; subexistence ; mv ; adult content

Sugar Mommy

 2003. Eu tinha 16 anos, estava no primeiro colegial de um colégio público. Já havias repetido a sexta série, em 1999. Depois de um dia comum de aula no colégio novo, um garoto da minha sala chamado Vinicius me chamou de canto e me disse que a tia dele queria falar comigo. Eu mal conhecia o cara, quanto mais saber quem era a porra da tia dele. Ela queria falar comigo na saída, mas eu estava cagando e andando para os dois. No mesmo dia, às 17h30 o telefone toca, eu atendo e é uma mulher que diz se chamar "Cláudia" querendo falar comigo. Ela disse que era do colégio e que o assunto era sério. Pediu para eu encontrar com ela na rua de cima da minha casa. Até onde eu sabia, Cláudia era a diretora do colégio, mas mesmo assim, eu fui. Até pensei em levar uma faca caso fosse falsa a ligação. Chegando na rua, me deparei com a secretária do colégio. Lentamente fui ligando os pontos. Ela obviamente chamou pelo meu nome e eu fui em direção à ela. Ela me cumprimentou com um beijo no rost...

Terça-Feira Comum

Terça-feira, junho de 2019. Eu descia a rua do boteco que eu costumava ficar cuidando de motos na frente para comprar drogas, pra mais um dia saciar meu vício em álcool, porque eu sabia que haveriam outros usuários na porta do bar. Fazia um frio do caralho, e eu encontrei meu amigo Rodrigo com uma garrafa de pinga e outra de conhaque, bem louco falando bosta sozinho pela rua. Ele me viu, e automaticamente saiu do seu estado tempestuado de alcoolismo e gritou pelo meu nome no meio da rua, e eu respondi gritando também, pois estava eufórico para secar aquelas garrafas. Nos abraçamos e eu comecei a beber com ele. Um moleque mais novo também estava lá; Garotinho era o apelido dele. Ele era conhecido por ficar baforando lança perfume e ficar falando sozinho, muito louco de droga na rua. A bebida foi subindo, as coisas foram esquentando. O Garotinho começou a falar pra caralho e encher meu saco. Eu disse que ia pregar ele no soco, e ele me disse que pelo meu tamanho, ele teria que tomar ...

Lágrimas

 Hoje eu quase chorei. Não sei se uma lágrima ou duas conta, mas me ensinaram a não chorar. Me ensinaram a ser "HOMEM", engolir a porra do choro e dos sentimentos esmagadores que já estão me engolindo. Se você chorar, você é mais um "viadinho" que o mundão fodido vai mastigar. Mas é foda não derrubar uma lágrima ou duas olhando para trás, mesmo sabendo que eu tenho que olhar para frente. Eu estava pensando hoje no segundo suicídio que eu presenciei: o primeiro foi um vizinho com esquizofrenia que pulou do vigésimo andar, em 1994. Eu tinha 7 anos na época, e me lembro do giroflex do IML e o corpo abstrato coberto por um lençol na maca. Só que o segundo suicídio foi foda. Saber que por detrás do crisântemo tinha um amigo enforcado no banheiro de casa, e ver ele no caixão com o pescoço todo fodido foi cruel. Mas se eu pensar nisso, eu choro, e eu nunca tive esse espaço. Meu pai me ensinou a dar socos e me masturbar para pornô barato com 8 anos. Ele nunca me deu colo, n...

Linha do Tempo

  1990 , eu tinha 3 anos, meus pais trabalhavam duro e não podiam cuidar do meu irmão e de mim (isso, meu pai ainda era pai). Contrataram uma babá para cuidar de nós dois (meu irmão e eu). Ela era estranha, eu me lembro que ela era uma pessoa de personalidade ruim. Segundo minha mãe, a escola que eu estudava ligou para o trabalho dela questionando ela, meu pai e as múltiplas escoriações que eu tinha pelo corpo. Logo associaram à babá. Eu me lembro de ser espancado e ouvir dela; "se você contar para os teus pais, eu mato teu irmão e você na paulada", e também me lembro de ser obrigado a lavar as fraldas de pano do meu irmão à mão, no tanque, enquanto ele ficava mijado no carrinho de bebê o dia inteiro. Nesse mesmo dia, meu pai chegou mais cedo do trabalho, pegou uma faca, colocou no pescoço da babá e disse que se ela voltasse novamente àquela casa, ela morreria (meu pai sendo pai pela primeira e única vez).   1994 , minha avó por parte de pai morre de complicações no coração,...

Dia Ordinário

 Fazia frio, chovia e era madrugada. Eu rastejava pela sarjeta com muita dificuldade, devido aos maus tratos das drogas. De longe, um vulto fantasmagórico. De perto, um ser totalmente desfigurado pelo crack. Ia me aproximando do boteco, que de longe cheirava forte a urina, e os alcoólatras me enxergavam como um monstro (O crack é muito julgado por outros usuários de drogas, mas a devastação das outras drogas são bastante semelhantes). Encharcado na porta daquele boteco, tocava Facção Central: "Desculpa mãe pela dor de me ver fumando pedra, pela Glock na gaveta, pelo gambé pulando a janela". Bem lá no âmago, no íntimo do meu ser, eu chorava forte; forte como a chuva que caía, mas por fora, era duro; duro como pedra, igual às que eu carregava nos bolsos.  Eu olhava para os piores tipo de pessoa, e me sentia um merda perto delas (Também, com tantos anos nas ruas, overdoses, abandono, esquecimento, espancamento e estupro na infância, como é que eu iria me sentir melhor?). Aquele...

Verão

 Rasteiros olhares que vagarosamente varrem paisagens com teus cílios, espelhando o verão com violetas crepúsculos e as paredes amarelo-alaranjadas do solstício austral. E quando noite cai, é soteiro, lúgubre, o estio e o olhar abismal que lágrimas enxurram pela moldura ressecada da janela d`alma, que em cascatas e rios refletem teus pares, e no afoito sopro da espontaneidade, na difluência astral inconsequente, as brisas bonadas desfazem-se em gotejo. Mas frente a mim não sei quem sou. Respiro, balbucio, cólera sucinto, e na mais escura das horas tudo se torna cegueira e gelo. O verão se apaga, as arestas do tempo cortam os dias. Só há penumbra e um vento que sopra com violência para trás tudo o que meu olhar tenta alcançar. Já não existem dálias nem crisântemos. Já não existem beijos nem seio quente, só um desfigurado presente e as migalhas da miséria no eterno outono acinzentado.

Uso em uso

Naquele entardecer violento, onde o crepúsculo parecia chamas de um céu em guerra, trepidava eu até a biqueira por mais alguns riscos doentios de cocaína. É como se o diabo esfolasse minha cara, e tudo que eu sentira fosse torpor. Parece que é de fora, mas os vermes vem de dentro para extirpar as entranhas. É mais do que um maldito comichão que me coloca à rastejar no asfalto quente da grandiosa metrópole, que engole a si própria, faminta por alienação. Esgueirando dos muros, postes e guias, vou eu, lentamente em direção à minha sina. Olhando de fora, parece bem mais atraente atirar na própria cabeça, ou atar o nó perfeito para enforcar a vida sorrateira que a aleatoriedade do universo me concedeu. Mas pouco a pouco é que eu vou morrendo, mais rápido do que a vida em si poderia dirigir. Meu suicídio é de dose em dose, trago em trago, tiro em tiro, pico em pico, pílul...

Quase...

Eu nasci bem próximo de ser rico. Nasci na favela do Real Parque. Bairro divisa com o Morumbi; um dos bairros mais ricos da América Latina. Toda a minha vida vivi entre bordas, contrastes e divisas. Eu fui sempre um "quase" nos capítulos diários de uma vida condenada ao "por um fio" ; ao incompleto. Antes de tudo, quando se vive em cima do muro sendo um "quase", existe uma regra básica que se aplica até aos mais desprovidos de cônscio, cujo não não tem nenhum resquício de senso crítico: "Enquanto poucos tem bastante, muitos não tem nada". Eu digo que não há necessidade de cônscio, pois quem percebe é quem tem sentidos. A pele que passa o dia lavando vidros no farol, debaixo de 35*C, sente. O nariz que passa o dia sobre o tanque inalando água sanitária, sente. Eu tive senso crítico, tive meus olhos, literalmente e de base analógica desfrutando inocentemente das vulgares imagens dos bastidores da minha vida. Senti nos ouvidos o choro da minha mãe p...