Monday, August 15, 2016

Quase...

Eu nasci bem próximo de ser rico.
Nasci na favela do Real Parque. Bairro divisa com o Morumbi; um dos bairros mais ricos da América Latina.
Toda a minha vida vivi entre bordas, contrastes e divisas. Eu fui sempre um "quase" nos capítulos diários de uma vida condenada ao "por um fio" ; ao incompleto.
Antes de tudo, quando se vive em cima do muro sendo um "quase", existe uma regra básica que se aplica até aos mais desprovidos de cônscio, cujo não não tem nenhum resquício de senso crítico:
"Enquanto poucos tem bastante, muitos não tem nada".
Eu digo que não há necessidade de cônscio, pois quem percebe é quem tem sentidos. A pele que passa o dia lavando vidros no farol, debaixo de 35*C, sente. O nariz que passa o dia sobre o tanque inalando água sanitária, sente.
Eu tive senso crítico, tive meus olhos, literalmente e de base analógica desfrutando inocentemente das vulgares imagens dos bastidores da minha vida.
Senti nos ouvidos o choro da minha mãe pós estuprada, a dor de não querer existir, e dos imensos boletos bancários que a mantinham obrigatoriamente viva por sentir a obrigação de fazer de dois moleques marginalizados, homens com capacidade de não somente mudarem a si mesmos, mas mudar tudo ao seu redor.
Porém, sentir na pele, sem observações pseudointelectuais de um moleque de 16 anos, doeu no íntimo, literalmente, por todas as vezes em que eu queimava os dedos nas chamas dos isqueiros, fumando crack, quando meus lábios rachados pela fissura (nos dois sentidos) secreçavam pus; quando meu estômago se contraia e eu vomitava o amarelo da bílis nas crises de abstinência; quando recebia coturnadas da polícia facista nas costas, e coronhadas na cabeça; quando meu nariz jorrava sangue de tanta cocaína...
Eu quase não seria um frustrado, se não tivesse sido espancado aos 3 anos. Eu quase teria sido mais um número na FEBEM comendo marmita azeda se eu não tivesse brecado a facada no peito do pai estuprador, aos 10, enquanto ele dormia bêbado e mijado. Eu quase não teria sido um viciado se não fosse tão normal ser um alcoolatra dentro da "família". Eu quase pude ser um adolescente com experiências sexuais até "divertidas", se eu não estivesse me prostituindo em troca de bebida barata para uma velha pedófila.
Eu quase pude ter um grande amor chamado "CB", se a vontade de beija-la tivesse sido maior do que a vontade de beijar um cachimbo cheio de cinzas. Eu quase rodei no tráfico, quando a PM invadiu a biqueira onde eu estava prestes a entrar pra comprar 15g de cocaína pros playboys que se divertem com o produto que meninas de 15 anos esconderam na vagina pra ter arroz e feijão no fogão. Eu quase fui baleado por fuzil mais de 30 vezes, se não fosse a porra do vício que me tornou sub-humano, a ponto dos porcos fardados acharem que uma bala valia mais que minha vida imunda.
Eu poderia não estar escrevendo agora, se as balas não tivessem passado de raspão, se eu não tivesse corrido o suficiente, se eu não soubesse me esconder, ou se eu não tivesse me dado a oportunidade de mudar, onde o "quase" não existe.

Friday, July 03, 2015

Black Tar Heroin - The Dark End Of The Street (Full Length)


Epígrafe

EPÍGRAFE

Sou bem-nascido. Menino,
Fui, como os demais, feliz.
Depois, veio o mau destino
E fez de mim o que quis.

Veio o mau gênio da vida,
Rompeu em meu coração,
Levou tudo de vencida,
Rugia e como um furacão,

Turbou, partiu, abateu,
Queimou sem razão nem dó -
Ah, que dor!
Magoado e só,
- Só! - meu coração ardeu:

Ardeu em gritos dementes
Na sua paixão sombria...
E dessas horas ardentes
Ficou esta cinza fria.
- Esta pouca cinza fria.

Manuel Bandeira    -    1917

Saturday, May 09, 2015

Carinho

O quão devastador foi me drogar e assistir quase que em câmera lenta a adicção roubando meus amigos, família e até mesmo, inimigos. Não houveram flertes, namoros, sorrisos, bailes, danças, cartas, abraços ou afeto.
Eu vim de um cinza que me tomou no colo assim quando criança. Meu pai bebia demais, agredia demais, estuprava demais e roubava demais para ser pai. Minha mãe, por obrigação, foi e é ausente.
Eu tive que ser pai do meu irmão. Coloca-lo para dormir, fazer sua comida, leva-lo para a escola, ensina-lo a fazer seu deveres escolares, ajuda-lo a escovar seus dentes, para quando ele crescesse, sequestrasse um playboy e enfiasse um oitão no rosto de uma grávida chamando-a sem dó e nem remorso de vaca burguesa. Nunca fomos amigos. Ele assaltante, sequestrador e traficante, e eu, nóia. Esquecemos nosso parentesco quando escolhemos ser homenes cada um de sua maneira. Eu não pude ser criança. O tempo meu foi abnegado pelas exigências de um adulto ausente.
O que eu realmente quero dizer é que dos carinhos, não os tive. Cresci seco e aprendi da maneira mais difícil. Cresci batendo e apanhando na rua, mas sempre apanhando dentro de casa.
Do homem casado com a minha mãe, nunca carinho. Hoje eu me pergunto, quantos quilates tem um abraço de pai?
Foi tudo combustível que queimou pra eu vagar sozinho e quase que descalço pela cidade floreada de pixos e o adorno que eram as descascas dos prédios velhos da SP que me adotara.
Eu era filho das ruas. Carinhos eu nunca tive.
Amor?
Eram duas moscas acasalando em cima de um cachorro morto na boca do lixo enquanto eu fumava pedra aos 17.

Saturday, January 17, 2015

The right of choose

Choose enemies
Choose dealing drugs
Choose beat in your wife's face
Choose be kicked in the face by a cop
Choose dirty needles
Choose teach kids how to smoke crack
Choose sell your body for a bag of  cocaine
Choose be arrested pregnant
Choose buy drugs spun in jail
Choose a fucking big pipe full of meth
Choose hide guns under your children's bed
Choose get drunk and vomit your guts
Choose sleep with rats on the streets
Choose suck cocks for five bucks
Choose try suicide every fucking night
Choose heroin overdose
Choose be dead still alive
Choose choke with your own blood
Choose shoot someone in a robbery
Choose death

Wednesday, January 14, 2015

1996

Quando a vida perdeu o colorido da tenra idade e ganhou tons nublados de maldade. As más lembranças pareciam sombras que estavam sempre a me perseguir toda vez que a onerosa claridade dos dias batiam em meus ombros.
Eu havia morrido por dentro. Por fora carregava o fardo pesado de não mais desejar viver. No espelho, o espectro de nove anos não enxergava identidade própria, somente de bem distante, alguns próprios traços escorrendo da imagem borrada e disforme de um ser já irreconhecível.
Na boca um gosto amargo; terroso, de quem regou os vasos da própria dor, sem enxergar quais eram as flores nos sepulcros dos olhos que se enterravam na vastidão do escuro daquele quarto.
Aquele quarto. Esse quarto. O mesmo em que me encontro agora, sentindo o vento gelado da manhã aquerôntica e ouvindo a exata rotação do diâmetro dos pneus trabalhando sobre o asfalto encharcado pela tortuosa e embriagada noite tempestuosa passada.
O passado é uma nuvem negra e carregada de tempestades. Dentro do contínuo espaço - tempo, elas parecem tão presentes ou adiantadas quanto um instante dentro de uma gota, prestes a colidir com as outras gotas que colidiram de antemão com o solo.
Perante o histórico de violência que eu tinha antes dos nove, hoje é fácil identificar que as turbulências estavam um passo depois do começo das frustrações de mais um dia invalidado pela minha incapacidade de me associar com o mundo.
A inocência que eu tinha em acreditar que eu poderia encontrar paz em um mundo que não era meu, foi a mesma inocência que me fez acreditar que eu poderia, pelo menos um dia, conhecer a paz dentro do lar, começando pelo meu pai.
Em meus pensamentos nebulosos, aquele dia foi como a teoria do big bang, onde a maldade que era matéria passou a predominar sobre a antimatéria, e o ódio passou a se expandir em escala universal.
Tolo eu em não compreender que estava prestes a vaguear pelos mesmos vastos campos dos olhos úmidos e sem direção que minha mãe traçou sinuosamente no vácuo da própria vida.
Entorpecido pelo sentimento pequeno de fé, acreditava eu poder movimentar todas as estruturas tortas dos alicerces da minha família. Acreditava que poderia moldar novamente as rachaduras do mais trincado pilar que nada assentava.
Meu pai.
Tudo que eu sei sobre ele é que ele era um alcoolatra covarde e violento, cuja mão de polidor de peças era tão pesada quanto a mão do destino que escreveu minha história. Não que eu acredite em destino, mas era com esse mesmo inconsciente que eu carregava fé, também na infância.
Todas as madrugadas, as maciças paredes concretas entre o quarto da minha mãe e o meu pareciam se tornar paredes de papel, transparentes para os ouvidos. Todas as madrugas eu me encolhia debaixo do cobertor quando chegava ele; bêbado, fedendo, violento e cheio de ódio.
Eu me sentia um covarde por não ser forte o suficiente para tentar impedir ele de bater na minha mãe. Todas as madrugadas eu escutava o murmúrio de piedade da minha mãe, após horas de abuso. Eu realmente acreditava que a fé poderia mudar um homem de 40 anos de remorso. Mudar toda a arquitetura dos seus pensamentos frios e obstinados de violência covarde contra duas crianças com menos de dez anos e uma esposa que o sustentava como dever, enquanto eu o assistia roubando a bolsa dela.
Eu abracei a rasteira fábula que  esguiava minhas crenças infantis, fazendo meus sonhos de ter um pai herói se debaterem no chão como uma ave decapitada. E dos portões daquele sorriso maligno aberto, vinham como cães raivosos as palavras delicadas "vem deitar com o papai hoje".
A madrugada, tão escura quanto a mente dele, arrebatou impetuosamente nove anos de ingenuidade.
Esse foi o dia em que o vilão venceu e eu enterrei minha infância.

Monday, December 08, 2014

O pouco que me restava

Diante de mim não havia nada, a não ser o pouco que me restava para nada ser e os segundos desgarrados do meu tempo de viver.
Fugiam os grãos das minhas mãos como pássaros que nunca tinham visto o mundo, e por detrás das barras das gaiolas do relógio, se desprendiam de mim para que não se deixassem levar pelos ventos que precediam bem distantes a tempestade que em mim se manifestava. O tempo era pouco, os minutos corriam como cavalos de areia de ampulheta, apressando-se para bem distante, arrastando carruagens velhas de lembranças incompletas e cadáveres de antigas expectativas de um adolescente primitivo, abraçando as gotas da minha chuva, edificando a morte; estreita entre eu e a calçada que me dava colo quando não podia eu ficar de pé para enchergar o horizonte griso e revolto que me assediava.
Era um flerte constante entre o vácuo da morte e o infrutífero campo seco dos meus olhos sem reflexo. Estava ela, a morte, intensamente obcecada pela criança suja, rasgada aos trapos da desesperança.
Existir parecia ser egoísmo. Ocupar espaço em um mundo onde as pessoas disputam cada centímetro. E lá estava eu estirado... o vabundo esperando a dama luto, ríspida e áspera aos olhos alheios. Suave e encantadora, resplandecia sua face perante a minha, exibindo seu escuro como cor de batalha que travava eu com a droga, em uma guerra incessante entre quem consumia quem.
No carnífice sorriso de quem me aguardava, repousando sua pujança onerosa na espádua minha, açoitada pelas garras da vida, rastejava sua sombra, circundando meu cadáver vivo. Então apostava eu novamente no milésimo que anteciparia minha jogada, arrastando meu nariz naquela quilométrica carreira de 15cm, dando um pulso a mais no coração desistente que me habitava.
Novamente sorria a morte, rachando o asfalto, aguardando meu ser com um sustentáculo ósseo, e de alicerce, a certeza universal de que nos braços me carregaria morto como me carregou no ventre minha mãe, enquanto eu ainda podia sentir a vida encharcar minhas veias com sangue limpo. 
Eu engasgava, babava e regurgitava o gozar das últimas palavras emaranhadas na saliva da minha boca. Era um adeus.
Um adeus que não se cumpriu pela espontaneidade que meu corpo respondeu ao que eu achei ser minha última dose de cocaína.
E lá estava eu, estirado na calçada, roubando os centímetros de cada méritocrata que me perfurava com seus olhos cheios de veneno e repúdio nas pontas.
Que mais podia eu fazer se a certeza universal da morte havia me errado pelo milésimo em que eu virei pra cheirar a carreira em que eu apostei ser a última?

Thursday, November 27, 2014

3

Chorei
Gritei
Me magoei
Me frustrei
Perdi
Caí
Me apoiei
Levantei
Caminhei
Andei
Corri
Cheguei
Conquistei
Aprendi
Me fortaleci
Venci e fiquei limpo

3 anos. 

Sunday, November 23, 2014

Lírios aos rebeldes que falharam

Sepulcral era o silêncio que dizimava palavras em sua boca, horas depois exumadas em murmúrios desapercebidos que voavam invisivelmente como pó no vento do profundo esquecimento. Sua existência não era desapercebida, porém, também não lembrada. Como uma estátua em decadência à ser tombada pelas drogas; rebeldes dominantes, o laçavam para lançar seus pedaços ao chão, como escravagistas da pobreza natural de cada migalha do seu corpo.
Há tempos enxergava ele, em cada placa, em cada letreiro, em cada muro, em cada pixação, em cada poça d'água, em cada nuvem, em cada olhar, em cada movimento, um subliminar umbroso que o guiava ao padecimento sequioso de sua entidade e à penúria do cônscio deslembrado. Sinais os seus, tão evidentes para o mundo quanto era evidente o íntimo dos símbolos à penumbra de sua própria visão.
O que nos atava, além do nó de duas marionetes entrelaçadas pelo vício, era o halo do exílio da associação invasiva que a obrigatoriedade das funções sociais exigiam. Éramos nós contra o mundo.
Em alto volume, como quem não queria ouvir seus próprios pensamentos, porém expressando uma realidade inevitável, tocava Tupac em seu stereo, justamente quando a sombra minha invadia pela manhã o seu apartamento, antes do meu corpo, rastejando pela fenda, debaixo da porta, seguida pelo amontoado ser disforme escorado no batente.

"Wake up in the morning and I ask myself, Is life worth living?
Should I blast myself?"

Sarcasticamente ecoava pelo vazio apartamento, contando conosco dentro.
Uma garrafa de uma bebida vagabunda, alguns baseados e uma sacada do 12° andar com alguns pés de maconha foram o suficiente para que ele extraísse o sumo amargo do próprio cônscio debilitado, olhando fixamente da sacada para o térreo, deixando respingar a frase que despencava de lá de cima "Toda vez que eu olho para baixo, sinto vontade de pular", e tapou sua boca com um gole de bebida, deixando o silêncio de uma confissão tomar conta do calor do meu corpo, fazendo de mim uma estátua de gelo, assim como ele, à desmoronar pelo calor do irrelevante brilho da manhã.
Sua mãe o internou em uma clínica de reabilitação, e eu, com a convicção de suas palavras cravadas em meu peito, escrevi uma carta de consolo, de excluso para excluso, na tentativa de esboçar no papel, meu opaco para sua escuridão, dividindo a luz da esperança como se divide um fóton.
Dois meses se passaram e eu ainda tinha a carta dentro de uma gaveta, coberta por embalagens de drogas e promessas. Finalmente saia ele da reclusão.
Pude conceber a expectativa de consertar o erro de nunca ter lhe enviado aquela carta cheia de identificações, corrigindo com um abraço o tempo em que não pudemos consolar um ao outro compartilhando histórias, dores, drogas...
Me disseram que o viram de costas passando pelo edifício onde morava. Eu estava a espera do meu parceiro de dores e drogas, ansioso, com o brilho do halo que nos unia.
Sexta-feira, 17 de abril de 2008, aproximadamente 10h da manhã, meu pai me acorda depois de uma madrugada perturbada, de desentendimentos entre eu e eu. Era um cara na linha que disse "mano, tá ligado o Hart? Ele morreu". Eu desabei e me tornei tempestuoso enquanto o cara aguardava na linha. Ele disse que meu amigo havia cometido suicídio. Tinha se enforcado com uma das gravatas das quais fingiamos procurar emprego, no banheiro da própria casa. Ele havia me avisado. Eu levei a sério, mas imaginava que a carta que eu havia escrito poderia curar sua solidão até a próxima dose, onde encontraria ele, mesmo na dor, sua zona de conforto.
Eu velava meu amigo 7 dias antes do meu aniversário de 21 anos.
Sua semblante emitia serenidade, mas as marcas em seu pescoço exibiam o horror de seus últimos momentos... sua hora mais escura.
Seu caixão ia descendo até o profundo; imperscrutável questionamento que faziam as pessoas, em seguida, repousando no fundo da sua cova.
Antes da primeira pá de terra, lancei um lírio branco por cima do seu esquife de madeira, uma lágrima caiu e eu dei as costas para nunca mais nos vermos.
Usar ou não usar drogas doía na mesma intensidade pra ele. Mal compreendido pelos outros, mas não por mim.
A carta eu queimei.
As lembranças?
Eu guardei.

Monday, November 17, 2014

A não existência do ser

Uma ou duas linhas abaixo das margens da miséria vivia escondido como escombro; um ser despedaçado por detrás das sombras das próprias ruínas.
Ríspido com o próprio âmago, afogando as vozes mais baixas que se podia ouvir dentro da cabeça a fundo do abissal silencioso em que seus olhos flutuavam. Boiavam lá também as ruas e outras misérias.
Recluso, à si mesmo negava as chaves da liberdade e a luz da janela, que tapava com manto, seja véu ou medo, manto que obstruia até mesmo uma só partícula de luz.
Apesar de ter tantos desejos encarcerados, nada lá se podia encontrar. Era o vazio de uma mente cheia de nada e os ecos dos sonhos já mortos em suas minas.
Rastejava o ser com um pé na guia e outro na sarjeta, desajeitado mais do que era por natureza, locomovendo seu corpo lívido à lugar nenhum.
Era de se ter medo. Como o dono da rua e todos os becos e avenidas, banhava-se na madrugada, escorado nas estrelas, como quem tentava escalar as mais amedrontadoras cascatas agarrando pedras lisas e musgos.
O desespero de ir vagarosamente à lugar nenhum despertava um brilho medonho em seus olhos cegos, que rastejavam a procura das pontas dos cigarros e da esperança, enquanto afogava-se em seu próprio abismo desapercebidamente.
Os tambores batiam forte, como desespero de um coração fugitivo, junto ao descompasso da sua existência, fugitiva também, caminhavam lado a lado, passo a passo, para um só parecer.
Os metros transformavam-se em kilômetros, dando ênfase à infinitude do rastejar humilhante nos inférteis solos de concreto.
De longe via-se a mancha que sujava as paredes da antemanhã. Uma aberração tão assustada quanto podia assustar.
As horas iam passando e sua existência ia se dissipando a cada metro percorrido, desaparecendo no abraço da noite.
E naquele momento já não existia mais o ser, como já não existiam seus pensamentos. Apenas aquelas manchas que perduraram até o alvorecer, refletindo a existência de um ser que para si não existe.

Wednesday, November 12, 2014

O pivete cresceu

Para meus irmãos e irmãs que ficaram para trás,caídos nos trilhos,na corrida do trem da vida, deixo minha satisfação e sorrisos por boas lembranças, pois toda vez que chorei por eles, me afoguei em lágrimas, e a sabedoria que cada um deixou transformaram-se em um grande barco a velas, que foi soprado pelos ventos da mudança para um hoje jamais imaginado.
A vida é dura, porém não impossível.
Olho pra trás e vejo um moleque assustado dentro do mercado, com o bis dentro da manga da blusa doada, pra adoçar o amargo da vida.
Lembro do pivete que passou pela violência no lar, pelos abusos sexuais, pela vontade da roupa de marca, pelo ódio ao pai, pela vontade do suicídio.
Olho um pouco mais adiante e vejo o jovem frustrado no meio do mato com a lata na mão, dentro do barraco pegando cachimbo debaixo da cama,fumando farelo de crack, vendendo chinelo pra cheirar cocaína.
Lembro da fome e vergonha que tinha quando comia os restos de frango frito na praça do Shopping,da polenta murcha,do sangue na camisa, das coronhadas, dos Pastores Alemães no enquadro, dos tapas na cara, do vício, do corpo vendido, das bombas da PM, dos roubos, da mãe que chorava com a bíblia na mão...e hoje virou um homem que sobreviveu aos testes da vida, nota 10 em sobrevivência na rua.
Quando você sobrevive, começa a aprender, estudar, se armar com palavras. O SISTEMA GELA...vc quebra as algemas que os ditadores colocaram em você.
A vida toma forma...a luta é diária e necessária.
Um passo de cada vez, sem medo, foi o necessário para sair daquela detenção sem muros, celas sem grades.

Tuesday, November 11, 2014

Turn the lights on! (in Portuguese)

Faça-se a luz! 
E num riscar de isqueiro 
manifestavam-se  minhas obsessões, flutuantes em um entardecer transcendental, como silhuetas, sozinhas vagueavam para um emaranhado de sombras no abater do dia. Abraçado pelos muros úmidos da cidade acizentada, esvairecia do meu ser a essência que preenchia a lacuna de seus becos improvisados por um amontoado de casas, que em degradee, com tons de melancolia, borravam a rua desde o plúmbeo opaco dos blocos molhados e mal erguidos até a última matiz amadeirada do último barraco, de onde ainda se podia ver o lívido amarelo da luz do último poste luminescente ainda aceso. 
Talvez de longe, somente por alguns instantes, eu pudesse tomar uma forma clara novamente, diante daquele fascinante fulgor que dançava para o vento frio, como um vestido alaranjado tremulante, reluzente à noite. 
Rapidamente meus desejos derretiam como palavras que estalavam com imperativo tom que ia despindo a claridade do meu ser perante o olhar abissal do escuro. 
As ruas calavam-se como reféns da paisagem mórbida do subúrbio de São Paulo. Era tudo tão silencioso que meus passos pareciam ranger com voracidade para o vazio que devolvia em ecos selvagens a paranóia de ser perseguido pelo atrasado som que fazia o descolar do meu solado, batendo entre o chão de concreto queimado e a planta dos meus pés, gradativamente. 
Sentia ódio de mim memso por fazer daquela pequena chama as trevas daqueles poucos segundos que perdurariam como cárceres eternos de uma lúgubre vida. Temia aquele soturno breu desde os buracos dos meus sapatos até o limbo das minhas pupilas dilatadas. Então já não mais sabia se era noite ou se era o céu da manhã coberto pela fuligem. Eu me perdi dentro de mim. Entre toda aquela fumaça que me cegava, eu tinha apenas uma única certeza : seguir a maldita luz. 
Meus olhos varriam incessantemente o panorama por debaixo dos meus pés, naquele metro cúbico, entre um degrau e outro, deslizando as mãos até a limiar do campo acimentado, procurando resquícios do que em mim era latente, obducto em meus bolsos. 
Provavelmente, haviam em números nos meus bolsos mais pedras de crack do que eu tinha de idade. 
Quando eu tinha 7 anos, minha inocência  cantarolava sonhos para o meu obsoleto futuro. Enquanto eu desenhava com um pedaço de lápis quebrado em um papel amassado a família dos meus desejos, imaginava usar terno e gravata aos 20 anos, enquanto apertava os passos pela Avenida Paulista,sem rumo, simplesmente apressado e indiferente como todos os adultos. Logo meus sonhos eram interrompidos por socos vindo dos punhos grandes do meu pai, envoltos em uma mistura de tabaco barato e álcool, e as súplicas da minha mãe, mulher que vendeu a independência  pela tola promessa ilusória de um Martini com cereja. 
Mergulhado nas circunstâncias exteriores das minhas razões justificadas pelas frustrações de uma infância melancólica, frustrada e estarrecida,cada trago trazia à tona amargas lembranças. 
Aos 3 anos de idade eu era espancado pela babá. Com o corpo cheio de hematomas eu enfrentava a pré-escola submerso na frase "se você contar para alguém, mato você e seu irmão". Aos 5 anos comecei a tomar conhecimento das desavenças e do alcoolismo do meu pai, que desesperadamente minha mãe tentava esconder sem sucesso. Aos 7 anos eu era obrigado a me alcoolizar quase todas as noites nos rituais da religião dos familiares do meu pai. Aos 8 anos eu passava as madrugadas acordado, ouvindo do outro lado da parede o choro da minha mãe, enquanto meu pai à estuprava sem piedade a noite inteira. Aos 9 anos foi a minha vez de ser estuprado. No mesmo ano tentei suicídio, porém, sem sucesso. Aos 10 anos tentei esfaquear meu pai enquanto ele dormia, porém, também sem sucesso. Aos 12 anos, lentamente comecei a abandonar os estudos. Aos 13 eu comecei a usar drogas ilícitas. 
Caráter lapidado pelas frustrações na infância, cego pelo crack, os únicos sentimentos, claros como a velha chama ininterrupta eram o ódio e a dor. 
Próximo dos meus 18 anos, que passaram como 18 séculos, ainda sofria calado, ouvindo os gritos de desesperança e agonia dentro da minha cabeça. 
Enquanto bêbado, quebrava as pedras de crack com os dentes e o outro viciado do meu lado esticava um guardanapo de bar, cheio de marcas de dedos sujos enquanto o preenchia com maconha mofada. 
Só de pensar em não fumar eu sentia náusea. Dentro das crises de vômito, minhas alucinações esquizofrênicas misturadas com a realidade que me circulava, sussuravam que eu provavelmente morreria alvejado por um policial da Ronda Ostensiva, extremista de direita, frustrado por não enclausurar viciados em cubículo de 3 metros de altura por 3 metros de comprimento e se divertir alimentando o seu sadismo de me ver sangrando no fundo de uma cela cheia de tuberculosos. 
Eu não conseguia fracionar o tempo entre um chewy com 4 pedras de crack e outro. O ar era denso, o clima tenso, a fumaça era prateada. Incessantemente segurando a respiração entre um trago e outro, extinguindo o tempo estritamente, enquanto preparava mais um chewy com 4 pedras, aguardando sem saber se estaria vivo, apenas para fumar todas as bitucas de chewy em um cachimbo, a caminho do ponto de tráfico pra comprar mais drogas com dinheiro roubado. Essas eram as minhas preocupações, enquanto me drogava ferozmente, com a obsessão de um carnívoro dilacerando sua árdua caça. 
Tudo acontecia tão rápido. O escuro ficava mais escuro. Eu estava morto antes mesmo de eu não sentir quse nada. Sentindo frio em uma noite de 26° C. Meu rosto, um rosto sem expressão ia se perdendo dentro de um espelho interior, sem reflexo. Senti a última batida do coração, depois o frio do campo de concreto queimado. Após um tempo indeterminado, uma pulsação. Recoberto por uma lucidez atormentante, visualizei apenas aquele viciado fumando todo meu crack enquanto eu apagava mais uma vez. Sem a ajuda de ninguém, me recobrei de uma overdose como um cadáver que arriscava viver novamente. 
Ali eu pude deduzir que não havia nada, a não ser o pouco que me restava para nada ser. Me levantei e saí arrastando os pés pelo asfalto, no sentido mais escuro da rua. 
O medo de caminhar pela luz não era simplesmente por não querer enfrentar diante da própria luz uma realidade há muito explícita, mas implicitamente era o medo do contraste que tinha entre a claridade do exterior o brumo do meu interior. 
23h50. Recobrando a consciência com um copo de conhaque para novamente ser o deus do meu desprezível mundo e refazer incansavelmente a luz que se extingue todos os dias dentro dele.

Turn the lights on!

As I ignite the lighter my obsessions manifested, floating in a transcendental eventide, like silhouettes, they wandered alone to a tangle of shadows in the sunrise. Embraced by the humid walls of this grayish city, the essence that filled the gaps of the improvised alleys in a pile of homes was vanished from my body which, with shades of melancholy, blurred the street from the opaque grey of the wet stones until the last wood hue of that last shack, where you still could see the pale yellow of light in the last lighted lamp post.

Maybe by far, only for a few moments, I could get myself clear again, under that fascinating brightness that slipped to the cold wind, like a fluttering orange dress, glowing at night.

My desires quickly melted as words that broke down in an imperative mood stripping the brightness of my being to the abyssal sight of the dark.

The streets were silent just like hostages of the morbid landscape of São Paulo suburbia. It was all so quiet that my footsteps seemed to creak voracious into the emptiness that gave back in wild echoes that paranoia of being chased by the noise of my sole hitting the floor between the burned concrete and the plant of my feet, gradually.

I felt hatred of myself for making that little flame turn into the darkness of those few seconds that would last like a death penalty of a lurid life. I feared that dark pitch from the holes in my shoes to the limbo of my dilated pupils. Then, I did not know whether it was night or if it was the morning sky covered by soot. I felt lost inside myself. In the middle of all that smoke which made me blind, I was sure about one only thing: I had to follow that damn light.

My eyes incessantly scanned the scenery under my feet, at that empty space, between each step, sliding my hands up to the threshold of that cement field, looking for remnants of what was latent on me, hidden in my pockets.

Probably, I had more crack rocks in my pockets than I had of age.

When I was 7 years old, my innocence hummed dreams for my obsolete future. While I was drawing with a piece of broken pencil in a crumpled paper the family of my dreams, I imagined myself by 20 years old wearing a suit, walking fast on the rhythm of the steps that walked by the Paulista Avenue, aimlessly, just simply rushed and indifferent as everyone else. Soon, my dreams were interrupted by punches coming from my dad's big fists, wrapped in a mixture of cheap tobacco and alcohol, and the prayers of my mother, a woman who sold his independence for some silly illusory promise of a cherry Martini.

I was drown in the external circumstances of my reasons justified by the frustration of a melancholic childhood, frustrated and terrified, each hit of smoke brought up bitter memories.

At 3 years old, I was beaten by the babysitter. With my body full of bruises, I faced preschool submerged in that sentence "If you tell anyone, I'm going to kill you and your brother".  When I was 5, I started to notice the disagreements of my father's alcoholism issue, which my mother desperately tried to hide without success. At the age of 7, I was obliged to drink almost every night in the religion rituals with my father's relatives. At 8 years old, I spent the night awake, listening to my mother’s crying while my dad raped her all night in the other side of the wall without mercy. When I was 9, it was my turn to be raped. In that same year I tried to kill myself, but I had no success. At the age of 10, I tried to stab my father while he was sleeping. However, I had no success again. When I was 12 years old, I slowly started to quit school. And At the age of 13, I started taking illegal drugs.

My personality was broken by the frustrations I had in my childhood, blinded by crack, the only feelings, as clear as that old uninterrupted flame, was the hate and the pain.

When I was about to turn 18 years old, which lasted as if they were 18 centuries, I still suffered quiet, listening to the cries of despair and agony inside my head.

Once, when I was drunk, I broke some crack rocks with my teeth and another addicted by my side was rolling a joint with his dirty fingers and filling it with moldy weed.

Just wondering of having to stop smoking, I felt nausea. Along the vomiting attacks, my schizophrenic hallucinations were mixed with the reality that surrounded me, whispering that I'd probably die by a cop shot gun, right-wing extremist, frustrated for not mewing addicts in a cage 3 feet tall by 3 feet long and having fun feeding his sadism by watching me bleeding down in a jail full of tuberculosis diseased.

I couldn’t barely count the time from the moment I had a 4 crack rocks chewy to the next time. The air was dense, the atmosphere was tense and the smoke was silver. On and on, holding the breath between each hit of smoke, extinguishing time strictly, while I prepared one more 4 rocks chewy, waiting unaware I was alive, only led by the cravings to hit all the smoke of a chewy pipe, heading to the dealers spot to buy more drugs with stolen money. Those were my concerns, when I got myself high, with the obsession of a carnivore animal ripping his arduous game/hunting.
It all happened so fast. The dark became even darker. I was dead even before feeling nothing. I was feeling cold on a 79°F night. My face, a face without any expression was getting lost inside a mirror, without reflection. I felt the last beat of my heart, and later on I felt the cold of this burned concrete field. After quite a time, a pulse. Covered by a astonishing sobriety, I only visualized that fucking addict smoking all my crack while I nodded off one more time. Helpless, I recovered myself from a overdose just like a corpse fighting to live again. 
There I could guess that there was nothing, but the few remainings that was left for me to be anything. I stood up and went off dragging my feet on the asphalt into the darkest side of the street. 
The fear of walking on the light was not just for not having to face the reality, but it was also due to the fear of the contrast between the external clarity and my internal murkiness. 
11:50 PM. I recovered my mind with a liquour shot to be, one more time, the God of my miserable world and restless remake the lights that turn off everyday.

Monday, November 10, 2014

Sussurros passivos

Longínquo, um sussurro deixava à ecoar em meus ouvidos, soluçando, a sentença: "comporte - se como um bom garoto, não fale pela abstinência... eles podem te ouvir"
Eu não podia comprometer meus valiosos 5 intensos minutos flutuando nas nuvens da fumaça do crack gritando ou me debatendo.
Me abster da presença alheia garantia bons frutos podres em uma vasta colheita naquele campo vazio.
Os solos inférteis do meu eu interior cansavam sonhos, que vagarosamente caminhavam sobre o rasteiro lamaçal feito de areia de tempo perdido e prantos. Confrontando minhas máculas no reflexo das poças d'água nos meu olhos, sabia que o silêncio era minha prisão, como a passividade de quem se cala por obrigação ou não, porém, inversamente proporcional ao mais próximo passo do abismo. Quanto menor a euforia, maior a expectativa real de uma queda quase que eterna, se não fosse pela morte/Quanto maior a euforia, menor a expectativa real de morrer antes da queda.
O silêncio não era medo, era a passividade de quem é escravo daquilo que ama (depende). Também era tristeza. Uma tristeza em que os músculos da face desistem de se contrair por vontade própria , tornando a expressão tão morta quanto a própria idéia de estar morto.
O que mais poderia eu fazer além de enterrar falsos sorrisos amarelados nas covas sujas do meu rosto?
Talvez fazer não como o Luso dos 1000 nomes e edificar dramas encaixando estrofe sobre estrofe, mas eternizar em rabiscos o meu ser nas paredes externas da realidade.
O silêncio não é só silêncio por ser mudo; é silêncio por ser o sussurro que só eu escuto, o soluço que só a mim atormenta ininterruptamente.

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